De cabeça para baixo: uma floresta invertida que ajuda a equilibrar o planeta

Na América do Sul, um bioma pouco conhecido, mas com uma das mais ricas biodiversidades do mundo, contribui para o equilíbrio do planeta com a ajuda de seus habitantes mais antigos: povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares.

No coração da América do Sul, existe uma floresta invertida com profundas raízes que conectam uma diversidade de frutos, plantas, animais, povos e culturas. Apesar de estar estreitamente ligada ao equilíbrio climático do planeta, poucos conhecem as riquezas deste bioma que está sob ameaças constantes. Metade de sua cobertura vegetal já foi perdida. O que resta da floresta invertida é protegida pelos povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares que habitam estas terras com suas ancestralidades e seus modos de vida sustentáveis.

Chamada de Cerrado, a savana brasileira é conhecida como “berço das águas” mesmo que enfrente, todos os anos, seis meses de seca intensa. Das 12 bacias hidrográficas do Brasil, oito nascem nessa região do país. Enfeitado com rochas, chapadas, árvores tortuosas, flores delicadas e perfumadas, cachoeiras gigantes, frutos saborosos e povos que têm muito a ensinar para o resto do mundo, o Cerrado é uma potência ecossocial.

Bons Frutos: experiências e riquezas dos povos

Na Comunidade Água Boa, nome premonitório e localizada no estado de Minas Gerais, sudeste brasileiro, vive Maria Lúcia Agostinho. Conhecida como Dona Lúcia, ela é agricultora familiar, geraizeira, protetora ativa do Cerrado e se considera também uma “guardiã das nascentes”.

Dona Lúcia trabalha para fortalecer a cadeia dos frutos coletados e comercializados na localidade, como araticum, mangaba, coco licuri e, especialmente, pequi. Na região, o artesanato com argila também é forte e resultado do aprendizado com os antepassados. Potes, filtros, panelas e jarros juntam-se às cadeias de frutos e contribuem com a geração de renda e sustentabilidade local. 

Frutas e plantas também se entrosam na fabricação desse artesanato. Mulheres fazem chapéus com a palha do licuri, balaio com cipó entre outros. Além disso, é forte o cultivo da agricultura familiar, especialmente da macaxeira, com a qual fazem goma e comercializam. O viveiro de mudas e as sementes crioulas também proporcionam produção e renda para a comunidade de Dona Lúcia.

Pequi

O território de Dona Lúcia é constantemente ameaçado por grandes empreendimentos, principalmente dos monocultivos de eucalipto. “Muitos desses empresários começaram a desenvolver monoculturas em regiões próximas, o que desgastou o meio ambiente e ocasionou desequilíbrios. Regiões que tinham água suficiente, hoje não possuem mais”.

As ameaças ao território da comunidade Água Boa impactam tanto o meio ambiente como o modo de vida dos agricultores e das agricultoras. Dona Lúcia conta que sua comunidade fez mobilizações, manifestações e ela própria chegou a ficar, junto a outros companheiros e companheiras, 36 horas em greve de fome e sede para impedir a destruição das nascentes feita por um grande empreendimento, que também os impedia de ter acesso às águas.    

Toda esta luta gerou frutos. Dona Lúcia e sua comunidade conquistaram o reconhecimento do território como uma Unidade de Conservação de uso sustentável, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras, nas áreas onde realizam a coleta de frutos e a criação de animais, o que lhes deu mais segurança. A guardiã das nascentes segue com sua comunidade na defesa de seu território, entendido como a defesa da própria vida.  

Localizada no Centro-Oeste do Brasil e considerada a maior comunidade quilombola do país, o território Kalunga é habitado por pessoas que nutrem uma relação ancestral com a natureza, pautada no respeito e na sustentabilidade. As mulheres se destacam no manuseio da biodiversidade local, a transformando em produtos artesanais de características únicas.
previous arrow
next arrow
Slider

São inúmeras as  plantas nativas que alimentam as famílias Kalunga, mas algumas também geram renda para as mulheres, como os famosos pequi e buriti. Elas ainda utilizam as produções da agricultura familiar para incrementar a comercialização nas feiras locais. São óleos, sabonetes, farinhas, temperos, artesanato, entre outros produtos, feitos por essas mulheres que estão sempre com as portas e as sabedorias abertas para quem quiser se encantar com a força Kalunga.

Ao visitar a comunidade de Vão de Almas, uma das tantas comunidades que compõem o território Kalunga, é fácil entender porque este trabalho é feito de maneira sustentável. O modo de vida dos quilombolas garante a conservação de grandes áreas de vegetação nativa, onde eles coletam esses tantos frutos e cocos, em meio aos seus roçados de mandioca, milho, feijão, arroz, gergelim, e uma infinidade de alimentos. 

A maneira de cultivar a terra, guardar as sementes e de aproveitar os frutos nativos fazem parte dos conhecimentos centenários dessa população. Se o território é a extensão do corpo das Kalunga, ele também é vida para essa comunidade.

Corpo kalunga

Longas raízes, conexões profundas

Essas duas histórias se passam na savana mais biodiversa do mundo, e um dos hotspots globais de biodiversidade. Comunidades como as de Dona Lúcia e das mulheres Kalunga podem ser encontradas por todo o Cerrado, região no centro do Brasil que é maior do que França, Itália, Portugal e Espanha juntos.

Tamanho do Cerrado

Nele, encontramos uma variedade de paisagens, fauna, flora e povos. A biodiversidade do Cerrado têm enorme potencial alimentar, medicinal, para construção de casas, fibras para artesanato, dentre outros. São cerca de 199 espécies de mamíferos, 864 de aves, 180 répteis, 210 anfíbios e 1.200 peixes. Ele também abriga mais de 12 mil espécies de plantas vasculares, das quais mais de 4 mil só podem ser encontradas em suas paisagens, é o que chamamos de espécies endêmicas.

O Pato Mergulhão é uma espécie extremamente rara. Atualmente, só é encontrado no Cerrado brasileiro em uma estimativa de 250 indivíduos adultos. 

Aves do cerrado

previous arrow
next arrow
Slider

Apesar de grande parte da sua vegetação ser composta por gramíneas, ervas, arbustos e árvores de médio porte, embaixo do solo é onde tudo acontece: com raízes que ultrapassam 10 metros de profundidade, representando até 75% da biomassa de arbustos e árvores, o Cerrado consegue estocar cerca de 13,7 bilhões de toneladas de Carbono.

Floresta Invertida
Floresta Invertida

A savana brasileira atua como um importante acumulador e assimilador de Carbono, contribuindo significativamente para seu ciclo na atmosfera, e sendo importante protagonista para deter uma das consequências do desequilíbrio climático: o aquecimento global. É uma floresta invertida que ajuda a equilibrar o clima do planeta.

carbono
carbono

Se o assunto é água potável, o Cerrado ganha ainda mais protagonismo. Apesar de ser uma região com estação seca bem marcada, ela é abundante em nascentes de água cristalina, rios, riachos e veredas. Nele, encontram-se afluentes importantes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul e que abastecem com água potável quase metade da população brasileira e ainda alcançam a Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Isso porque sua vegetação contribui para a captação das águas das chuvas que abastecem o segundo maior reservatório subterrâneo de água no mundo, o Aquífero Guarani, que possui 1,2 milhão de km².

Encontrados apenas no Cerrado, dois aquíferos de importância nacional, o Bambuí e Urucuia, ampliam a importância do Bioma para o acesso à água potável. Os dois são fundamentais para o abastecimento de toda a bacia do São Francisco, rio da integração nacional que abastece grande parte do Semiárido, região do nordeste brasileiro com uma das maiores taxas de desigualdade social do país e com problemas históricos relacionados ao acesso à água. Os aquíferos Bambuí e Urucuia ainda garantem o abastecimento de importantes rios dos estados de Minas Gerais (sudeste brasileiro), Bahia (nordeste brasileiro) e Tocantins (norte brasileiro). Em períodos de longas secas, significa vida para as populações locais.

Com toda esta riqueza de água, o Cerrado está diretamente relacionado com a segurança energética. No Brasil, 80% da eletricidade vem das usinas hidrelétricas, muitas das quais estão localizadas em rios como Tocantins, São Francisco e Xingu, que possuem suas fontes na floresta invertida.

Bioma invisível, ameaças reais

A beleza e importância ecológica do Cerrado são subestimadas no Brasil e na agenda ambiental internacional. À margem de ações e políticas que consigam lhe proteger, a floresta invertida é o segundo bioma brasileiro mais ameaçado. O maior desafio está em conciliar o desenvolvimento econômico à conservação do Cerrado e o respeito à história e à tradição de seus habitantes.

Disputada para a produção de alimentos, a savana brasileira possui a maior área de terras agrícolas e de pecuária do Brasil. Em 2019, o país bateu recorde em produção de grãos, com mais de 240 milhões de toneladas, e a previsão para 2021 é ultrapassar mais uma vez os números. O Centro-Oeste, proporcionalmente a região com mais extensão de Cerrado no Brasil, responde sozinho por 47,5% dessa produção. Em 2020, a agropecuária teve 21% de participação total na exportação brasileira, sendo que a soja representa 13,6% dessa fatia.

Os maiores consumidores desta demanda são os países do bloco asiático, juntamente com os Estados Unidos e a União Europeia, o que estimula este tipo de produção no Cerrado brasileiro. No entanto, é preciso avaliar quais impactos esse modelo de desenvolvimento acarreta.

Segundo a organização belga Wervel, a agropecuária feita de forma desordenada transformou 90% da produção agrícola do Bioma em soja e levou 40 milhões de cabeças de gado para o bioma, o que significou graves impactos socioambientais.

Ameaças
Ameaças
previous arrow
next arrow
Slider

O acelerado desmatamento feito nas últimas décadas para a produção agropecuária reduziu a cobertura vegetal do Cerrado a menos de 50% do seu território original. Em 2019, 99% do desmatamento feito no Brasil foi ilegal, estando a savana brasileira entre os biomas mais impactados.

Este modelo de produção significa ainda o agravamento de problemas sociais históricos no Brasil, como a concentração de áreas cultiváveis e de riquezas. Essas questões, muitas vezes, estão relacionadas à grilagem de terras, uma das principais causas da violência contra povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares, como vimos acontecer na comunidade de Dona Lúcia.   

E não é só o agronegócio feito de maneira desordenada que ameaça  a vida do e no Cerrado. A degradação do Bioma também está presente no avanço das grandes empresas de mineração, na produção de carvão vegetal nativo e nos incêndios criminosos. Esse conjunto de atividades feitas sem planejamento e de maneira ilegal representa grave ameaça à manutenção dos serviços ecossistêmicos do Cerrado. 

Povos: a sustentação do Cerrado

Diante de tantas ameaças ao Cerrado, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares são os grandes responsáveis por manter o Bioma em pé, como a comunidade de Dona Lúcia e das mulheres Kalunga. São esses grupos que nos ensinam a conviver com respeito e sabedoria no ambiente que nos cerca.

Onde há vegetação do Cerrado conservada é onde estão os povos e as comunidades tradicionais e os agricultores familiares. São indígenas, quilombolas, pescadores e pescadoras artesanais, geraizeiros, comunidades de fundo e fecho de pasto, vazanteiros e tantos outros que, por várias gerações, desenvolveram formas sustentáveis de ocupar seus territórios. Com seus sistemas agrícolas primorosos e em forte conexão com as paisagens do bioma, eles e elas também nos mostram rica cultura, danças, cantos e rituais ligados aos seus modos de vida tradicionais.

“…Se admirou de haver tanta ciência naquela gente comum” – João Ubaldo em Viva o povo brasileiro.
previous arrow
next arrow
Slider
Os meios de vida desses moradores e moradoras do Cerrado proporcionam uma paisagem onde convivem áreas de roça, moradia, pasto e grandes áreas de vegetação nativa. Muitas vezes, esses territórios são responsáveis pela conexão entre áreas protegidas ou remanescentes. Eles contribuem assim com a conservação da biodiversidade, viabilizando a manutenção dos serviços ecossistêmicos do bioma, como produção de água, polinização, estoque de carbono, fluxos genéticos, entre outros.
São comunidades como a de Dona Lúcia e das mulheres Kalunga que garantem a diversidade na mesa do brasileiro e a conservação do Cerrado – além de outros Biomas. A agricultura familiar é responsável por 70% da produção que alimenta a população do Brasil. É ela quem proporciona a base da alimentação nacional, como feijão, arroz, macaxeira, frutas e tantos outros. É o trabalho feito pelos povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares que permeiam as feiras agroecológicas e orgânicas, garantem segurança alimentar, e ensinam ao país e ao mundo que é possível gerar renda conservando os recursos naturais. 
previous arrow
next arrow
Slider

Colheitas: caminhos para salvar o Cerrado

Proteção do Cerrado
Proteção do Cerrado

ESTRATÉGIAS POLÍTICAS PARA O CERRADO

Confira aqui o documento estratégias políticas para o Cerrado (8,0 Mb)

Promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais 

Dona Lúcia e as mulheres kalunga receberam apoio para o desenvolvimento de projetos socioambientais do Fundo Independente para a Promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais (PPP-ECOS), uma estratégia do ISPN para a conservação ambiental por meio do uso sustentável da natureza. Em um contexto desfavorável para o meio ambiente no Brasil, na América do Sul e no mundo, iniciativas como essas contribuem para resgatar, proteger e potencializar os modos de vida das populações tradicionais e para a sustentabilidade ambiental global, da qual o Cerrado é peça-chave.

Os projetos também são uma das formas usadas pelas comunidades para fortalecerem a luta pela proteção do território onde vivem. “Abraçamos o projeto para resgatar nossa territorialidade, pois estávamos perdendo cultura, perdendo espaço para o desmatamento, perdendo nossas nascentes de água. As lavouras também estavam enfraquecidas por falta de água, o território estava sendo bastante degradado”, conta Dona Lúcia.   

No caso das mulheres Kalunga, o projeto desenvolvido pela comunidade contribuiu com a qualificação e adequação de seus produtos para a comercialização em feiras locais. A produção ganhou cores, imagens e identidade. Além disso, instrumentos e materiais para auxiliar o beneficiamento dos frutos e das plantas foram conquistados, o que fortaleceu ainda mais a atividade. “O trabalho dessas mulheres ficou mais valorizado, as plantas passaram a ter um valor econômico para a comunidade, o que vem contribuindo com a qualidade de vida local”, conta Jaqueline Evangelista, uma das assessoras do Projeto. Os consumidores também ficaram satisfeitos com os produtos em embalagens mais resistentes e bonitas, contendo mais informações. Há cada vez mais pessoas interessadas em se alimentar e se embelezar com os óleos, sementes e frutos do Cerrado.   

O Cerrado, com toda sua dimensão, diversidade ecológica e social encanta, impressiona e se destaca quando falamos sobre compromissos com o meio ambiente em nível mundial. Sua integridade se relaciona com a estabilidade de outros ecossistemas ao seu redor, como a Amazônia e outros biomas de países vizinhos. A energia elétrica gerada no país, a chuva que chega no sudeste, o estoque de carbono e a água que irriga a fruticultura nordestina demonstram as conectividades do Bioma. Manter o Cerrado em pé é garantir força e elementos para vivermos em um planeta saudável, em que paisagens produtivas e sustentáveis se conectam. No coração da América do Sul, existe uma floresta invertida que pode nos ajudar a criar um mundo com justiça social e equilíbrio ambiental.  

Nossa vida é o cerrado vivo

O Cerrado é considerado por nós e pessoas que vieram antes de nós, a nossa caixa da água, a nossa sustentabilidade, e a nossa vida é relacionado com o Cerrado Vivo, é de lá que vem a água e sem água não tem como uma comunidade sobreviver.
Dona Lúcia
Dona Lúcia

Fotos: Acervo ISPN – André Dib, Bento Viana, Jaqueline Evangelista, Thomas Bauer, Peter Caton, Janine Moraes.